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Doutrina não é insinuação

  • há 23 horas
  • 4 min de leitura

Um texto de opinião publicado no Diário do Minho [texto original] voltou a afirmar — com aparato de “recordatório” e com a severidade própria de quem fala em nome de uma fronteira moral — que catolicismo e maçonaria são incompatíveis.


A frase, tomada assim, não é novidade nem heresia: corresponde à posição oficial reiterada pela Igreja ao longo do tempo. O problema começa quando, depois de enunciar uma norma eclesial, o texto desliza para outra coisa: o lançamento de suspeitas cívicas (sobre magistrados, procuradores, “irmãos” que se protegem, crimes que se abafam) como se a doutrina autorizasse esse salto.


E não autoriza.


Imagem de capa do artigo “Doutrina não é insinuação” (My Fraternity): livro aberto em fundo de pedra, evocando leitura crítica, fontes e rigor no debate público.
Entre a norma e a suspeita vai um abismo: quando a doutrina sai do seu lugar, o que entra é a insinuação.

O que a Igreja efetivamente diz (e é suficiente para o debate eclesial)


A Santa Sé tem sido clara, de forma pública, sobre a pertença de católicos a associações maçónicas.


Em 1983, a Congregação para a Doutrina da Fé declarou que o juízo negativo da Igreja permanece inalterado, considerando que os princípios maçónicos são irreconciliáveis com a doutrina católica, e que a inscrição coloca o fiel numa situação objetivamente grave, com consequências sacramentais.


Em 13 de Novembro de 2023, o Dicastério para a Doutrina da Fé reafirmou, numa nota assinada pelo Víctor Manuel Fernández e aprovada pelo Papa Francisco, que a “adesão ativa” à maçonaria por parte de fiéis é proibida devido à irreconciliabilidade entre doutrina católica e maçonaria, propondo ainda uma resposta pastoral centrada em catequese e clarificação. A nota surge em resposta a um pedido do bispo Julito Cortes, preocupado com o aumento do fenómeno na sua diocese.


Isto basta para uma conclusão simples, no plano interno católico: um católico que adere a uma loja não pode esperar que a Igreja trate essa adesão como neutra. Pode discutir-se o mérito, pode discutir-se a hermenêutica, pode discutir-se a história — mas não se pode fingir que a posição oficial não existe.


O ponto, porém, é outro: essa posição é sacramental e eclesial. Não é um mandado para suspeitar do próximo.


O que o texto do jornal acrescenta (e por que é aí que o debate se desvia)


O artigo do Diário do Minho não se limita a citar o que a Igreja diz: acrescenta uma camada de dramatização moral e social, insinuando que a pertença a uma loja pode converter-se numa fidelidade superior à lei — sugerindo cenários de arquivamentos para proteger “irmãos” ou decisões judiciais “em nome da loja”.


Aqui, convém travar.


Uma coisa é a Igreja afirmar incompatibilidade doutrinal (por razões que a própria formula como sendo de fé, moral e coerência eclesial). Outra coisa, muito diferente, é transferir essa incompatibilidade para a praça pública como se fosse prova indireta de corrupção. Essa transferência, quando não vem acompanhada de factos concretos e verificáveis, não é “zelo”: é insinuação.


E a insinuação, no espaço público, é uma forma sofisticada de acusação: aponta sem provar; cria sombra sem responsabilidade; inocula desconfiança sem ónus de demonstração. Ora, se há campo em que o ónus importa, é precisamente quando se invocam juízes, procuradores e crimes.


Três distinções que protegem a verdade (e evitam a caça)


1) Norma eclesial não é sentença civil.


A Igreja regula o acesso aos sacramentos e a coerência da pertença eclesial. O Estado de direito regula as responsabilidades penais e disciplinares com base em prova. Misturar os dois planos dá origem a uma teologia politizada ou a uma política teologizada — e nenhuma serve o bem comum.


2) A crítica religiosa não dispensa o padrão mínimo de justiça.


Mesmo que alguém considere uma via iniciática “concorrente” da fé cristã, isso não autoriza a concluir que os seus membros são menos íntegros na função pública. Integridade mede-se por atos, não por caricaturas. A ética pública — justamente por ser pública — exige critérios mais altos do que a lógica de pertenças.


3) “Maçonaria” não é um bloco único — e a generalização costuma ser a mãe da calúnia.


A própria linguagem comum trata “maçonaria” como se fosse um só corpo homogéneo, quando, na realidade, o fenómeno é plural em obediências, práticas e auto-compreensões. A Igreja fala em “associações maçónicas” como categoria teológica problemática; isso não transforma automaticamente cada maçon real no personagem moral que o polemista precisa para fechar o parágrafo.


O que uma réplica honesta deve afirmar (sem jogar ao empate)


Uma réplica séria não precisa de negar a tensão histórica entre Igreja e maçonaria, nem de fingir que a Igreja “exagerou”. Precisa, isso sim, de dizer duas coisas ao mesmo tempo — e de as manter separadas com disciplina:


  1. Sim: a Igreja Católica mantém, oficialmente, a posição de incompatibilidade e proibição de filiação maçónica para os fiéis, com consequências sacramentais.

  2. Não: essa posição não legitima atirar suspeitas sobre pessoas concretas ou categorias profissionais, nem construir um “imagine-se” que funciona como acusação sem prova.


Isto é particularmente importante num tempo em que Portugal se habituou a viver em regime de suspeita permanente — como se a desconfiança fosse uma virtude cívica. Não é.


A desconfiança, quando vira hábito, é apenas corrosão: destrói reputações, enfraquece instituições, e deixa-nos mais disponíveis para as manipulações de quem grita mais alto.


Se a discussão é teológica, então discutamos teologia — com fontes, com argumentos, com honestidade sobre o que a Igreja ensina e porquê.


Se a discussão é cívica, então discutamos civismo — com factos, com critérios, com prova.


O que não é aceitável é usar uma nota doutrinal para insinuar delitos, como se a fé fosse um atalho para dispensar o tribunal.


A verdade — mesmo quando dura — não precisa de truques.


Fonte: [Diário do Minho — artigo de opinião, 20/02/2026].



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