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Mensagem do MRGM da GLRP|GLLP | 09.04.6022

Meus Queridos Irmãos,


Depois de praticamente dois anos em que fomos obrigados, por força da pandemia, a adiar as nossas Sessões, eis-nos aqui reunidos em mais uma celebração do Equinócio da Primavera.


Todos sentimos, certamente a mesma alegria, um idêntico sentimento de júbilo por podermos agora, como com os restantes Irmãos nas nossas Lojas, desfrutarmos de novo da presença física uns dos outros, dentro e fora do tempo ritual.


Não me é possível transmitir-vos de forma adequada o sentimento que me dá, ao ver-nos aqui reunidos, presencialmente, em fraterna companhia. Que assim nos possamos manter no futuro é o que peço ao Grande Arquitecto do Universo.


Apenas em dois anos assistimos a duas guerras. Uma guerra contra um vírus que provocou milhões de vítimas mortais, das quais muitas foram enterradas sem nome em valas comuns. Assistimos à pior manifestação do mal: quando alguém, um ser humano, é recordado apenas como estatística.


O Covid fez isso, fez-nos voltar no tempo ao Inferno, embora muitos infernos cheios de fome e miséria humana prevaleçam em todo o mundo, particularmente em África, mas também junto de nós, em “guetos” esquecidos nos recantos das nossas cidades. Mesmo perto de nós, mas tapados pela nossa indiferença.


Mas a verdade é que a Maçonaria se uniu para ajudar quem sofreu com a doença, em Portugal e no Mundo.


O equinócio recente foi – como sabem – uma data única que assinalou o perfeito equilíbrio entre o dia e a noite, entre o Sol e a Lua que simbolicamente decoram os nossos templos, entre o Céu e a Terra.


Este é um período de profundo significado iniciático. Uma altura para o renascimento, a renovação e a regeneração.


Responsáveis pela construção de uma sociedade e de um mundo mais justo e perfeito, somos agora levados a prestar atenção, no nosso interior, ao brotar das primeiras sementes que, em muitos casos sem darmos por isso, fomos incubando e regando nos nossos espíritos e corações durante os meses do Inverno.


A Primavera é a estação das grandes mudanças, da saída da letargia e da exuberância da vida em todas as suas manifestações.


Quem nos impele a prosseguir o cíclico caminho dos astros na sua sagrada geometria é aquele a quem justamente designamos o Grande Arquitecto do Universo.


É a crença no Grande Arquitecto, divinamente superior ao meramente humano, que faz de nós maçons regulares e nos distingue – na nossa Augusta Ordem – como aqueles que verdadeiramente preservam as tradições dos Livros Sagrados, os seus ensinamentos, o seu conhecimento iniciático, legado à Humanidade por quem nos criou e a tudo o que nos rodeia.


Nós somos aqueles que têm Fé e nela persistimos. Porque entendemos, como maçons que somos, os limites do Humano e, em humildade, reconhecemos que somos feitos à imagem e semelhança de Algo maior.


Nas palavras atribuídas a Hermes Trismegisto, “O que está em cima é como o que está em baixo”. E este princípio deve guiar-nos na certeza de que correspondemos a um modelo divino que nos molda e orienta.


É importante, diria mesmo decisivo, que entendamos a importância da preservação e até da defesa desta nossa regularidade, do respeito absoluto pelos landmarks, esse conjunto de preceitos de validade Maçónica Universal, que unem e uniram maçons e obediências maçónicas através do Espaço e do Tempo, unindo geografias distantes, ligando o passado ao presente e assim construindo o futuro.


Falamos de Maçonaria Regular. Daquela que nós somos os únicos e legítimos representantes em Portugal.


Há uma divisória inultrapassável entre nós e aqueles que se autodefinem como Maçons Regulares, e que procuram, por diversas vias, o reconhecimento, sem cumprirem os critérios da regularidade. Todas essas pessoas são merecedoras do nosso respeito, mas não podemos transigir na herança e na preservação desse legado que nos foi confiado.


Ainda estamos a enfrentar a pandemia, a sarar as feridas que abriu e as perdas que provocou, e somos já confrontados com os efeitos da guerra desencadeada pela Rússia com a invasão da Ucrânia. Guerra essa que irá provocar a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial.


No presente, observamos que ainda a luz muito fraqueja nesta longa noite que teima em cessar, tal como vemos e sentimos o enorme sofrimento dos nossos Irmãos Ucranianos, afectados pelo maligno troar das armas no seu solo pátrio.


Nesta altura de enorme divisão e de profundos conflitos, é a certeza de acreditarmos nos mesmos princípios, como maçons, que nos permite partilhar uma linguagem universal que através dos abraços fraternos, da cadeia de união, do ritual e dos símbolos, das palavras e dos toques, supera e ultrapassa as fronteiras entre as línguas e os costumes. Fraternos, Livres, Solidários, somos todos iguais.


Nem acima nem abaixo uns dos outros. E, por isso mesmo, partilhamos todos a responsabilidade enorme de sermos maçons, homens de bons costumes, apostados em sermos, cada um de nós, um exemplo neste caminho nunca terminado em busca da perfeição, para longe da pedra bruta e das trevas, mesmo quando elas nos parecem cercar como agora sucede.


Estamos dentro do Mundo. E o Mundo vive marcado pela disputa e o medo. Ultrapassámos os anos da pandemia que tantos obstáculos colocaram à nossa vida maçónica, e que tanto afectaram a nossa saúde, e dos que nos são próximos, mas nada garante que novas estirpes não venham a surgir em breve.


Vivemos num continente que voltou a ser assolado por uma guerra, numa Europa que não voltará a ser o que foi, e que agora, mesmo que forçada, descobre em si mesma o poder da solidariedade, da defesa dos valores comuns pela preservação da humanidade contra o espectro da ameaça atómica, algo que julgávamos inimaginável nas nossas vidas.


E habitamos um planeta que continua ameaçado pelo colapso causado pelos nossos próprios comportamentos, que levaram ao desequilíbrio, ao aquecimento global e à disrupção climática, obrigando à extinção de milhares de espécies, e colocando em causa, inclusive, a existência das nossas gerações futuras.


No entanto, tudo isto sucede em simultâneo com os avanços da Ciência, da ubiquidade das formas de comunicação e de partilha do conhecimento, da quase instantaneidade das viagens que nos permitem transpor e ignorar as distâncias.


Parafraseando Charles Dickens, este é o melhor e o pior dos tempos. O tempo da sabedoria e da loucura; da crença e da incredulidade; a estação da luz e a estação das trevas; o cume da esperança e o inverno do desespero. “Tudo isto encontrávamos diante de nós”, escreveu ele então. E o mesmo acontece agora.


E é por isso que a mensagem, e o exemplo da maçonaria universal se torna tão premente, tão necessária e tão útil no nosso tempo.


É que a construção do templo humano nunca é obra terminada, pelo contrário, urge a persistência constante na sua edificação, pois o aprimoramento não é só prosseguir adiante na melhoria do ser humano, é também evitar regredir, procurando ancorar as conquistas civilizacionais em bases fortes e amplamente consensuais.


Por isso mesmo, como poucas vezes sucedeu no passado, é agora chegada uma altura em que se torna decisivo levarmos integralmente a sério a nossa condição de maçons. Para dentro como para fora.


Para dentro, porque a preservação do nosso equilíbrio interior deve ser a primeira missão à qual nos devemos dedicar. Cada um de nós é apenas humano, e somos, portanto, naturalmente afectados pela instabilidade que nos cerca. Que nos perturba mental, económica e mesmo fisicamente. Da nossa sanidade depende a possibilidade de estarmos em condições de ajudar os outros, e é por isso que não devemos descurar corpo e espírito nesta altura tão difícil.


Esta é, seguramente, na História da Humanidade, a primeira vez que se confia tanto na Ciência, mas a pandemia veio despertar o interesse pelo lado transcendente da vida. A espiritualidade ajuda na compreensão dos sofrimentos, e na construção de significados e propósito à vida.


Segundo Jung, a palavra “Felicidade” perderia o seu significado se não fosse equilibrada por um pouco de tristeza: “É compreensível que procuremos a felicidade e evitemos os momentos de pouca sorte”, dizia e continuava: “Mesmo assim, a razão ensina-nos que essa atitude não é razoável e o melhor seria encarar as coisas conforme elas surgem, com paciência e tranquilidade.”


E para fora, importa termos a consciência permanente que temos ao nosso dispor a capacidade imensa da nossa egrégora, essa força espiritual que resulta da soma da nossa energia colectiva, e que deve servir para o bem comum. Para que consigamos superar as trevas e, como sucedeu no passado em diversos momentos da História, possamos voltar em breve a recordar com justificado orgulho o papel que tivemos como maçons, para a vitória do Bem e a preservação da Humanidade.


Todos conhecemos os landmarks da nossa Augusta Ordem que se destacam pela paz, harmonia, elevação moral, tolerância, compreensão e auxílio aos mais desprotegidos. Mas também sabemos, que para defender estas proposições, tudo teremos de fazer para que a razão e a força das convicções dos homens livres possam persistir.


E neste âmbito não deixaremos, onde quer que estejamos e em que posições estivermos, de nos tornarmos fortes e poderosos para enfrentar os déspotas, os autoritários, os criminosos e qualquer outro anacronismo que pretenda fazer recuar o avanço da humanidade.


O espírito da Maçonaria é antagónico à guerra, pois a nossa tendência consiste em unir todos os homens numa fraternidade, mas a verdade é que quando for preciso lutar para defender os mais básicos direitos humanos, não poderemos hesitar em o fazer.

Cito Simone Weil:

“Cabe aos homens velar para que se não faça mal aos homens. Em alguém a quem se faz mal, faz-se penetrar verdadeiramente o mal; não somente a dor, o sofrimento, como o próprio horror do mal. Como os homens têm o poder de transmitir o bem uns aos outros, eles têm também o poder de transmitir o mal. O mais frequente é os homens transmitirem o mal aos homens fazendo-lhes mal.”

Mas queria relembrar que se a maioria dos males são provocados por lideranças políticas fracas, ignorantes, incompetentes, maléficas e frequentemente cheias de preconceitos e defeitos de caracter, não é menos prejudicial haver lideranças religiosas que apelam à contenda e até a incentivem, apoiem e, declaradamente a sustentem.


É incompreensível que uma liderança religiosa apoie, e até enfatize com teorias, filosofias e argumentação histórica, o incremento da guerra, como vimos recentemente ocorrer em Moscovo.


Saibam que não há países ou povos bons ou maus, o que há é lideranças boas e más e são elas que trazem o mal ao mundo.


Nós, maçons, trabalhamos em prol do aprimoramento do Homem, sendo este que nos interessa, pois é o Homem que ocupará os lugares e as funções que fazem governar as sociedades e as nações. Lamentamos que haja seres humanos, que em lugares que se dizem sacros, produzem os males e ratificam os crimes contra a Humanidade.


Bem sabemos que na Ucrânia e na Rússia há Irmãos nossos, e é para eles que se dirigem as nossas preces ao GADU para que sejam iluminados e protegidos, e assim possam contribuir para o fim da guerra e que cesse o flagelo de tão horrendo sofrimento, que se abate sobre as aldeias, vilas e cidades ucranianas.


A Maçonaria mundial tomou pela primeira vez posição pública sobre a Guerra da Ucrânia. Na reunião da CMI em Lima, no Perú, os Grão-Mestres e representantes de 96 Obediências Maçónicas Regulares assinaram um documento histórico, que a partir de agora ficará conhecido como a “Carta de Lima”.


Na “Carta de Lima”- que representa a posição oficial dos representantes de 560.000 maçons distribuídos por 27 países e reunidos na Confederação Maçónica Interamericana, salientando-se que a maçonaria é “uma fraternidade de nações que promove a tolerância, e não pode ficar indiferente à tragédia humanitária que esta guerra representa”, deixando para a posteridade que “Inerente a qualquer busca de justiça e paz está o pleno reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação e independência, livre de qualquer interferência”, bem como “a validade de soluções pacíficas para disputas de conflitos consagrados nos princípios contidos na Carta das Nações Unidas de São Francisco.


É de futuro precisamente que importa falar. Na verdade, temos novas guerras à porta e temos de prepararmo-nos e intervir de imediato, se não quisermos cometer o mesmo erro:

– A primeira é uma que, desde o primeiro momento em que tomei posse, alerto para ela: a das “Alterações Climáticas”.


Gravíssima, imprevisível, capaz de provocar mais vítimas que todas as guerras ocorridas no último século juntas. É uma guerra entre o homem consciente e o homem indiferente. Porque o inimigo não é a natureza, nem o clima. É o comportamento humano egoísta e os interesses económicos, indiferentes ao meio ambiente, que são o verdadeiro inimigo. E aí, meus Irmãos, temos um papel Urgente para desempenhar. Como dizemos normalmente: O nosso exemplo deve servir para melhorar o mundo. É exactamente disso que se trata: do nosso exemplo.


Vamos dar o exemplo todos os dias, nos nossos hábitos, no consumo, mas também exigindo individualmente como cidadãos e colectivamente através da Nossa Grande Loja, que os governantes não se distraiam mais na tomada de medidas para evitar a total catástrofe planetária.


Neste desígnio, ainda este ano, vamos promover uma Conferência sobre o tema do combate às Alterações Climáticas.


– A segunda é a Guerra da Tecnologia. É essencial que a tecnologia sirva a humanidade e não o inverso. A guerra do Homem na luta pela sua privacidade: 6G, Web3, Inteligência Artificial, Identificação Facial, Nanotecnologia, GPS milimétrico, etc.


Realidades já existentes que vão chegando gradualmente ao público, geridas por grandes grupos económicos com agendas ocultas, onde o acesso e utilização abusiva de dados pessoais é um dos parâmetros de decisão.


Neste campo a nossa “arma” é o saber, a aprendizagem, o conhecimento. A capacidade de aplicar o que nos é oferecido para produzir coisas que sejam positivas para a humanidade. A luta para que o digital, nas suas várias vertentes seja inteligentemente regulado, por forma a garantir valores de Ética. Os nossos valores.


Como vosso Grão-Mestre, acredito em vós e no vigor das nossas colunas. Este é o momento da Força e da Sabedoria. Saberemos encontrar a melhor forma para demonstrarmos, como os valores da Maçonaria ganham ainda mais sentido, em alturas de ameaça e de extrema dificuldade. O conhecimento é a nossa maior arma.


Quando o inimigo se encontra dentro de portas, como aconteceu em outros momentos da História, iremos novamente vencê-lo porque a ignorância dará, como já deu, prova de que a sua jactância é frágil face à força do verdadeiro espírito. Do nosso lado teremos, como sempre tivemos, o Grande Arquitecto do Universo, à glória do qual dedicamos o nosso trabalho e as nossas vidas.


Nunca se esqueçam do que jurámos perante o Livro da Lei Sagrada, e isso é eterno. A Luz que nos encadeou então, prosseguirá para sempre na nossa vida, todos os dias e todos os anos. É nessa Luz que temos de acreditar, porque iluminará todos os nossos caminhos, e assim nunca soçobraremos sejam quais forem as dificuldades.


A todos e a cada um de vós, meus Irmãos, desejo Paz, Lucidez e Serenidade para os dias que virão. E estarei, como sempre, ao vosso dispor para tudo o que necessitarem no vosso caminho, que é também o meu.


Lisboa, 9 de Abril de 6022

Armindo Azevedo Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP


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