top of page

U.S.     ENGLAND     FRANCE     BRASIL     PORTUGAL     ESPAÑOL

O Silêncio que Nos Governa

Atualizado: 3 de out. de 2025

Entre o discurso da prosperidade e o vazio da carteira abre-se o fosso de uma ilusão coletiva.


Há um silêncio que atravessa o país, mais pesado do que a crise económica ou as estatísticas da emigração. É o silêncio das praças que já não se enchem, dos cafés onde o murmúrio político cedeu lugar à distração televisiva, das escolas onde professores e alunos resistem em silêncio à erosão do ensino. É este silêncio que governa, e talvez mais do que qualquer decreto ou orçamento.


Dizem-nos que Portugal está melhor. Repetem-no, como um refrão cansado, ministros, comentadores e as colunas de opinião que se oferecem ao poder. E, no entanto, basta sair à rua, apanhar um autocarro em Lisboa ou uma camioneta em Bragança, para perceber o desajuste entre a frase oficial e a vida real. O Estado vangloria-se de contas certas enquanto subsidia não já os pobres, mas as classes médias aflitas, como se o próprio sistema tivesse perdido a coragem de assumir a sua falência.


O problema não é apenas económico. É civilizacional. Quando um país se habitua a aceitar que a política se resuma a slogans, quando as televisões repetem até à exaustão a imagem de um líder da extrema-direita, quando os jornais se calam sobre os escândalos que corroem a democracia, o que sobra é este silêncio. Não um silêncio contemplativo, como o dos claustros, mas um silêncio paralisante, cúmplice, que permite que a mentira se instale como verdade.


Há quem diga que a solução é modernizar, privatizar, entregar o que resta do bem comum às mãos de quem sabe fazer render o lucro. Foi essa a receita que se aplicou ao longo de trinta anos: nas telecomunicações, na energia, nos transportes. O resultado não foi liberdade, mas dependência. Não foi eficiência, mas monopólios privados que tratam cidadãos como clientes descartáveis.


E, enquanto isso, as crianças crescem a ouvir que não vale a pena estudar porque o futuro já está hipotecado. Os pais aprendem a viver com salários que não cobrem o mês inteiro. Os avós descobrem que a reforma serve apenas para pagar medicamentos. Todos, em coro silencioso, aceitam que é assim, que nada pode ser mudado.


Mas pode. Sempre pôde. O 25 de Abril não trouxe apenas liberdade política; trouxe a prova de que é possível quebrar o silêncio e recomeçar. A democracia não é perfeita — nunca foi — mas é um exercício diário de insubmissão. E o que nos falta hoje não é tanto uma nova Constituição ou uma nova revolução, mas a coragem simples de dizer em voz alta o que todos sabem em silêncio: que não é admissível viver num país onde se trabalha mais e se ganha menos, onde se fala de futuro e se condena uma geração inteira à precariedade.


É possível que alguém leia estas linhas e encolha os ombros. Que diferença faz um artigo a mais? Não será também isto parte do ruído a que já nos habituámos? Talvez. Mas a história nunca começou com multidões. Começou com vozes isoladas, palavras escritas, gestos pequenos que, de repente, se tornaram maiores do que a indiferença.


O que está em causa não é apenas política. É dignidade. É não aceitar que a criança que entra hoje numa sala de aula saiba que, no fim do percurso, a recompensa será um contrato a prazo. É não aceitar que os velhos sejam tratados como um peso social, quando foram eles que sustentaram o país durante décadas. É não aceitar que o Estado se apresente como bom administrador quando, na verdade, se transformou em gestor de uma pobreza organizada.


Escrevo isto em setembro de 2025, não por acaso. Setembro é o mês em que as rotinas regressam: a escola, o trabalho, os horários, a disciplina do calendário. Mas também pode ser o mês em que regressa a consciência, a memória de que este país foi capaz de se levantar quando parecia impossível. Talvez setembro seja o mês ideal para dizer, sem medo: basta de silêncio.


Não sei se alguém ouvirá. Mas sei que não quero contribuir para o mutismo geral. Porque o silêncio governa apenas enquanto o aceitamos.


Quando a palavra se liberta, quando um texto, um discurso, uma manifestação rompe o cerco, o poder descobre o seu limite. É essa a lição mais simples da história: nenhum regime resiste indefinidamente à palavra livre.


Que este artigo não seja lido como queixa, mas como convite. A falar, a discordar, a debater. Porque, no fim, só há duas escolhas: deixar que o silêncio continue a governar ou devolver-lhe a única resposta que ele teme — a nossa voz.


Acompanhe outras Notícias em Internacional


Homem segura carteira vazia, simbolizando a crise económica em Portugal
O País Melhor, os Portugueses Piores

Comentários


bottom of page