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Maçonaria - As Colunas do Silêncio

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Há histórias que se repetem porque são verdadeiras; e há histórias que se repetem porque precisamos delas.


A construção do Templo de Salomão pertence às duas categorias. Ela é, ao mesmo tempo, um relato antigo — com a sua poeira de arquivo e as suas contas por ajustar — e uma "máquina" simbólica que continua a trabalhar dentro de nós, mesmo quando julgamos já ter mudado de época.


Uma figura aponta o vale a partir de uma varanda com colunas; cenário da antiga Israel, entre Reis e Crónicas, com o templo como alegoria de memória e disciplina.
Do pórtico, uma figura adulta aponta o horizonte: a paisagem antiga onde o templo deixa de ser edifício e passa a ser símbolo.

Colunas de Silêncio: o Templo de Salomão entre 1 Reis e 2 Crónicas.


Quem abre a Bíblia à procura do templo encontra, logo, um facto curioso: não há “uma” versão. Há pelo menos duas narrativas centrais, alojadas em 1 Reis e 2 Crónicas, que contam, com ângulos diferentes, a mesma grande obra.


Em 1 Reis, o templo surge no fluxo de uma história política e moral, onde a monarquia se engrandece e, ao mesmo tempo, começa a criar as condições da sua própria ruína.  


Já em 2 Crónicas, o mesmo passado é recontado como quem reorganiza uma casa depois do incêndio: há um esforço evidente de reenquadrar, de depurar, de dar centralidade ao culto, à ordem ritual, ao lugar de Jerusalém como coração do regresso.


O leitor apressado chama a isto “contradições”.


O leitor paciente percebe que é outra coisa: são camadas.


A própria tradição bíblica conserva memórias antigas, mas retrabalhadas por mãos posteriores — mãos que escreveram com uma intenção teológica e com a urgência política do seu tempo.  E é aqui que a história do templo ganha uma estranha atualidade: porque nos obriga a admitir que a transmissão humana — oral, escrita, ritual — é sempre uma construção. Há fidelidade, sim; mas há também seleção, ênfase, esquecimento, correção, às vezes até autocensura.


O edifício e o que se ouve dele


Em termos de narrativa, o templo começa com logística: madeira, pedra, trabalho, alianças, prazos.


O texto de 1 Reis é quase táctil quando descreve dimensões, materiais, proporções.  


Em 2 Crónicas, o arranque tem igualmente o peso da preparação e a solenidade de um projeto que se quer total: não é apenas um edifício, é uma declaração de prioridade — o sagrado como eixo do reino.


Mas há um detalhe — pequeno como uma frase, grande como uma regra de vida — que costuma passar despercebido: a ideia de que o trabalho mais ruidoso não acontece no local do templo.


No relato de 1 Reis, lê-se que as pedras eram preparadas antes, e que no lugar da construção não se ouviam ferramentas de ferro.  


A imagem é quase insuportavelmente moderna: a obra verdadeira faz-se fora do palco. O barulho fica na pedreira; no “templo” — isto é, no lugar onde a forma final aparece — o gesto é contido, quase litúrgico.


Há pessoas que passam a vida a tentar o contrário: querem construir à martelada, em público, com o ruído como prova de trabalho.


Os documentos sugerem outra ética: a disciplina interior precede a visibilidade.


O que nos corrige — a esquadria íntima, a aprendizagem do limite, a domesticação do ego — não é coisa para plateias. A pedra não se endireita sob aplauso.


Duas colunas à entrada, duas perguntas à consciência


É também nos detalhes arquitetónicos que a narrativa se torna símbolo.


Um dos casos mais fortes são as duas colunas nomeadas na entrada do templo: Boaz e Jachin. Elas aparecem explicitamente nos textos bíblicos (em particular, na descrição das colunas e dos seus nomes).


Não é preciso cair no exotismo para reconhecer o poder desta imagem.


Duas colunas, dois nomes, um limiar.


Um lugar onde se passa do exterior para o interior — e onde o próprio corpo percebe que está a atravessar uma fronteira.


O templo, aqui, não é só uma casa de Deus: é um teatro moral, um dispositivo de passagem, uma pedagogia do “antes” e do “depois”.


E talvez seja por isso que estas colunas sobrevivem tão bem fora do texto religioso, reaparecendo como símbolos noutras gramáticas — incluindo a simbólica da Maçonaria, onde o templo de Salomão se torna uma alegoria central e os nomes das colunas ocupam um lugar recorrente.


Importa dizer isto com rigor: não se trata de “provar” uma continuidade histórica direta entre o templo antigo e as organizações modernas — isso seria uma simplificação.


A própria historiografia sobre a Maçonaria sublinha que, ao longo do tempo, os maçons construíram narrativas de origem e linhagem com forte componente mitologizada, remetendo simbolicamente para Salomão.  


O que aqui interessa não é a genealogia literal, mas a função: certos símbolos têm uma estranha capacidade de se manterem úteis, porque continuam a dizer qualquer coisa verdadeira sobre o trabalho humano.


A discrepância como método, não como falha


Quando comparamos 1 Reis e 2 Crónicas, encontramos diferenças de ênfase, de tom, de ordenação e, por vezes, de pormenor. Isso não enfraquece o texto; obriga-nos a lê-lo como ele merece: com inteligência histórica.


A tradição bíblica não se apresenta como relatório técnico; apresenta-se como memória interpretada.


E aqui surge um paralelismo inevitável com qualquer tradição ritual que atravessa séculos: também ela se fragmenta, ajusta, abrevia, corrige.


Os ritos são transmitidos por pessoas, e as pessoas são, simultaneamente, veículo e contradições. Há versões; há escolas; há “pormenores” que mudam sem que a intenção mude.


O erro maior não é haver variantes. O erro maior é viver de ouvido, como se a memória bastasse — e depois confundir familiaridade com verdade.


Ler as duas versões bíblicas do templo não é, portanto, um hobby de curiosos. É uma disciplina: ensina-nos a não absolutizar o que recebemos sem exame, a distinguir o núcleo do acessório, a suspeitar da frase demasiado redonda. Num tempo que adora certezas instantâneas, a discrepância pode ser uma forma de honestidade.


O templo, hoje: aquilo que construímos quando dizemos que construímos


A grande sedução do templo — no texto bíblico e no uso simbólico posterior — é que ele nos dá uma linguagem para falar do que não sabemos dizer de outro modo: a obra interior, o carácter, a ordem moral, a arquitec

tura invisível.


Há uma dimensão quase consoladora na metáfora: se o mundo é caótico, ao menos eu posso construir uma coisa. Mas o texto bíblico, lido com cuidado, não oferece consolo fácil. O templo de Salomão é erguido no auge; e, no entanto, a história que o rodeia sabe que nenhum esplendor é garantia de fidelidade.


É por isso que a imagem da pedra talhada fora do local da construção volta aqui como aviso. A obra humana pode ser grandiosa — e pode falhar. Pode ser correta na forma — e vazia no espírito. Pode ter colunas perfeitas à entrada — e pouca verdade lá dentro.


No fim, talvez seja isto que torna o templo inesgotável como alegoria: ele não nos deixa escapar. Obriga-nos a perguntar, com seriedade, o que estamos realmente a construir quando dizemos que estamos a construir. E obriga-nos a aceitar que uma tradição — seja ela bíblica, histórica ou ritual — não é uma peça de museu: é uma responsabilidade.


Uma coisa que se transmite, sim, mas que também se verifica, se estuda, se limpa do ruído, para que volte a ser, de novo, palavra e pedra.


E, se houver uma única imagem a guardar, talvez seja esta: duas colunas à entrada, não para sustentar um teto, mas para sustentar um limiar. O resto — o resto depende do que cada um faz quando atravessa.



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