Porque é que Franco perseguia a Maçonaria?
- 30 de abr.
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Francisco Franco interessa à Maçonaria porque o seu regime fez dela um dos nomes do inimigo. A ditadura saída da Guerra Civil não governou apenas com tribunais especiais, prisões, censura, exílio e polícia política. Governou também por meio de uma gramática moral, quase religiosa, na qual a Espanha verdadeira surgia cercada por contaminações: liberalismo, Iluminismo, comunismo, republicanismo, Maçonaria, estrangeirismos, dúvida. A Espanha franquista quis chamar restauração ao que era domínio. E, para que a restauração parecesse necessária, teve de apresentar a liberdade como doença, a pluralidade como dissolução, a consciência crítica como traição.
Quem foi Franco para além da caricatura?
Francisco Franco Bahamonde governou a Espanha desde a vitória nacionalista na Guerra Civil até à sua morte, em 20 de novembro de 1975. Foram cerca de 36 anos de poder pessoal, atravessando a Segunda Guerra Mundial, o início da Guerra Fria, a integração de Espanha no dispositivo estratégico ocidental e a transformação económica parcial de um país devastado, ruralizado, pobre e marcado por uma violência fratricida que não terminou quando os combates cessaram.
O franquismo usou a Maçonaria como símbolo do liberalismo, do Iluminismo e da autonomia moral que ameaçavam a sua ideia autoritária de Espanha.

A imagem caricatural do ditador baixo, frio, cinzento e sem grandeza retórica diz alguma coisa, mas diz pouco. Franco não foi um tribuno inflamado à maneira fascista clássica, nem um teórico de vasto fôlego, nem um chefe popular dotado de magnetismo arrebatador. Foi outra coisa, talvez mais duradoura: um administrador paciente do medo, um homem de ambição persistente, um militar que percebeu cedo o valor político da espera, do silêncio, da ambiguidade e da eliminação metódica dos rivais. Governou como quem se confunde com a própria sobrevivência do Estado. Ao longo dos anos, a sua figura deixou de ser apenas a do vencedor de uma guerra para se tornar a do pai severo de uma nação oficialmente menor.
A Espanha que saiu da Guerra Civil estava exausta. Havia luto, fome, ruínas materiais, famílias divididas, memória de perseguições religiosas, fuzilamentos, vinganças, medo do comunismo e horror perante a violência anticlerical de setores republicanos durante o conflito. Franco soube transformar esse trauma num argumento permanente. A sua promessa era simples e dura: depois do abismo, só a autoridade impediria a queda. Muitos espanhóis aceitaram essa promessa, por convicção, por medo, por cansaço ou porque a vida quotidiana, com o tempo, aprende a acomodar-se até ao que a humilha.
A estabilidade absolve uma ditadura?
Uma prisão também pode ser estável. Um país sem oposição legal pode atravessar décadas sem grandes explosões públicas. Uma sociedade vigiada aprende depressa a baixar a voz, a falar em família com cuidado, a reconhecer os limites invisíveis da frase permitida. A ausência de tumulto não prova saúde política. Pode provar apenas que o custo da dissidência se tornou demasiado alto.
O franquismo baixou a temperatura política de uma Espanha ferida, mas não o fez por reconciliação. Fê-lo por vitória. Os vencidos não foram integrados numa nova comunidade cívica; foram castigados, calados, empurrados para o exílio, para a prisão, para a pobreza, para uma cidadania diminuída. A censura não foi um acidente administrativo. A repressão não foi um excesso lateral. A exclusão dos derrotados pertenceu ao próprio desenho do regime.
Há sempre quem olhe para esses anos e retenha apenas a ordem aparente, a neutralidade espanhola na Segunda Guerra Mundial, o anticomunismo útil aos Estados Unidos, o crescimento económico da segunda metade do franquismo ou o facto de, depois da morte do ditador, Espanha ter conseguido transitar para uma democracia europeia viva. Esses factos existem e devem ser conhecidos. O erro começa quando passam a servir de absolvição. Uma ditadura não muda de natureza porque deixou algumas pontes, alguns ministros eficientes, alguma prudência externa ou uma sucessão que, por caminhos não inteiramente controlados pelo morto, permitiu outro futuro.
A paz imposta pode suspender o conflito durante muito tempo. Não o cura. Apenas o dobra, o guarda, o faz reaparecer mais tarde sob a forma de memória disputada.
Porque é que a Maçonaria servia tão bem ao inimigo interior?
A Maçonaria reunia, aos olhos do franquismo, uma série de perigos úteis. Podia ser associada ao liberalismo político, ao constitucionalismo, à secularização, ao pensamento ilustrado, à circulação internacional de ideias e à suspeita permanente de conspiração. Era suficientemente concreta para ser nomeada e suficientemente vaga para caber em quase todas as acusações. Essa combinação tornou-a preciosa para um regime que precisava de explicar a história de Espanha como cerco, queda e resgate.
O antimaçonismo franquista não nasceu do nada. Bebia em correntes católicas integristas, em tradições contrarrevolucionárias, em fantasias conspirativas do século XIX e nas ansiedades de uma direita espanhola que via na modernidade política não uma disputa legítima, mas uma apostasia. A Maçonaria aparecia, assim, como uma chave falsa capaz de abrir todas as portas: a perda do império, o liberalismo, a República, a educação laica, a crítica à autoridade clerical, a organização de elites civis fora da tutela tradicional.
A utilidade política desse inimigo era evidente. Ao apontar a Maçonaria como força dissolvente, a ditadura podia apresentar-se como defesa espiritual da nação. O combate deixava de ser apenas policial ou militar; ganhava ares de purificação. Não se perseguia simplesmente um adversário. Limpava-se a casa. Protegia-se a alma espanhola. Salvava-se a continuidade de uma Espanha católica, hierárquica, una, obediente, desconfiada do mundo moderno sempre que o mundo moderno lhe chegava com direitos, parlamentos, autonomia intelectual ou liberdade de consciência.
O alvo não eram apenas lojas, rituais ou redes discretas. Era a possibilidade de homens se reunirem fora do controlo absoluto do Estado e fora da disciplina ideológica do regime, cultivando reserva crítica, fraternidade, estudo, consciência e autonomia moral. Para um poder que desejava organizar a vida pública a partir de uma única fonte de legitimidade, essa liberdade de associação tinha um valor quase intolerável.
Franco combateu a Maçonaria ou combateu a liberdade?
No sistema franquista, as duas dimensões tocavam-se. A Maçonaria era temida menos pelo seu peso político efetivo, variável e frequentemente exagerado pela propaganda, do que pelo conjunto de significados que o regime lhe atribuía. Ela representava uma lealdade que não nascia do chefe. Uma ética que não dependia da ordem recebida. Um espaço de reconhecimento entre homens livres que escapava, pelo menos em intenção, à obediência total que a ditadura desejava naturalizar.
A ditadura precisava de súbditos disciplinados, ainda que lhes chamasse espanhóis verdadeiros. A tradição maçónica, quando não se perde em vaidades ou rotinas, parte de outro princípio: o homem deve trabalhar-se a si mesmo para poder encontrar o outro sem servilismo e sem ódio. Esta diferença parece abstrata apenas à primeira vista. Um regime autoritário compreende-a muito bem. Sabe que a liberdade interior é perigosa antes mesmo de se tornar programa político.
Franco não via no pensamento livre uma peça neutra da vida civil. Via uma fissura. A Espanha que imaginava não precisava de cidadãos deliberativos, mas de corpos ordenados, famílias enquadradas, consciências obedientes, imprensa vigiada, universidades disciplinadas e religião convertida em cimento nacional. A Maçonaria, pela sua história e pelo seu simbolismo, fornecia a imagem inversa: trabalho interior, iniciação como exigência de aperfeiçoamento, fraternidade para lá da fronteira imediata, primado da consciência sobre o reflexo tribal.
Não se deve romantizar a Maçonaria para compreender a perseguição que sofreu. Basta reconhecer o que ela significava para quem a perseguiu. O franquismo não precisava que todos os maçons fossem poderosos; precisava que a palavra “maçom” significasse perigo.
Porque regressa a tentação de suavizar Franco?
A memória pública cansa-se da exigência. Com o passar das décadas, as fotografias perdem o cheiro da prisão, os discursos parecem documentos de arquivo, os mortos entram em estatísticas e os netos dos vencidos discutem com os netos dos vencedores num país já europeu, turístico, constitucional, aparentemente distante da violência fundadora. A tentação de suavizar Franco nasce muitas vezes desse afastamento. O ditador deixa de ser experiência e passa a ser objeto. O objeto pode ser reordenado, polido, comparado, defendido em parte, reabilitado com cautelas.
A narrativa costuma vir por fragmentos. Franco venceu a guerra. Franco impediu uma Espanha comunista. Franco manteve o país fora da Segunda Guerra Mundial. Franco garantiu estabilidade. Franco permitiu crescimento económico. Franco morreu e a democracia chegou. Cada frase contém uma parte reconhecível de realidade histórica; nenhuma chega para apagar a estrutura de coerção que sustentou o regime. O problema não está em estudar esses elementos. Está em deixá-los funcionar como anestesia.
A Guerra Civil Espanhola não foi um conto moral simples. Houve violência anticlerical, assassinatos, radicalização, medo real de revolução e crimes cometidos em zonas republicanas. Ignorar isso empobrece a história e alimenta a caricatura contrária. Contudo, reconhecer a brutalidade do campo vencido não transforma automaticamente a vitória franquista em redenção política. A ditadura que se seguiu não foi apenas resposta ao caos; foi um projeto de poder prolongado, com doutrina, instituições, repressão, censura, educação dirigida, propaganda e culto do chefe.
Também o crescimento económico precisa de proporção. A Espanha dos anos do chamado desenvolvimento não nasceu apenas da clarividência do ditador. Dependeu de tecnocratas, abertura parcial, turismo, remessas de emigrantes, investimento, contexto internacional, mão de obra barata e integração gradual em circuitos económicos ocidentais. O regime beneficiou desses processos, controlou-os quando pôde, usou-os como prova de legitimidade. Mas crescimento não é liberdade. Uma sociedade pode enriquecer parcialmente e continuar politicamente tutelada.
A pergunta incómoda não é saber se houve aspetos eficazes no franquismo. Houve. Quase todos os regimes longos produzem alguma administração, alguma obra, alguma adaptação inteligente. A pergunta é outra: que tipo de país se constrói quando a eficácia é comprada com silêncio?
Que lição deve a Maçonaria retirar desta memória?
A liberdade raramente desaparece de uma vez. Antes de cair, é discutida como se fosse excesso. Depois torna-se inconveniência. Mais tarde passa a ser risco. Por fim, alguém propõe suspendê-la em nome da ordem, da fé, da pátria, da segurança, da família, da economia ou da tranquilidade pública. A história de Franco mostra bem esse percurso. A ditadura não se limitou a reprimir liberdades existentes; ensinou uma parte do país a desconfiar delas.
Para a Maçonaria em Espanha, esta memória não é apenas corporativa. Seria pobre reduzi-la à perseguição sofrida por maçons espanhóis ou ao uso obsessivo da palavra “Maçonaria” na propaganda franquista. A lição é mais larga. Sempre que um poder precisa de inventar um inimigo interior para explicar a pluralidade do mundo, a liberdade civil fica em perigo. Ontem foram maçons, liberais, republicanos, marxistas, professores, sindicalistas, estrangeirados. Noutras épocas serão cosmopolitas, jornalistas, juízes, minorias, universidades, organizações cívicas, artistas ou simples cidadãos que recusam repetir a frase oficial.
O mecanismo conserva uma espantosa juventude. Primeiro escolhe-se um grupo suficientemente identificável para ser odiado e suficientemente elástico para receber todas as culpas. Depois atribui-se a esse grupo uma intenção secreta. A seguir, transforma-se a defesa da nação numa licença para limitar direitos. Quando a sociedade dá por si, a exceção já ganhou hábitos de governo.
A memória maçónica não precisa de rancor, nem de pose sacrificial, nem de uma vitimização que dispensaria análise. Precisa de lucidez, de sobriedade e de atenção ao vocabulário político. As ditaduras começam muitas vezes por alterar o sentido das palavras. Chamam disciplina à obediência. Chamam paz ao silêncio. Chamam unidade à amputação da diferença. Chamam tradição ao medo do pensamento. Chamam decadência à liberdade alheia.
Recordar Franco não é conservar uma guerra dentro da linguagem. Também não é negar a complexidade da história espanhola, nem apagar os crimes cometidos por forças que se opuseram ao franquismo durante a Guerra Civil. É recusar que essa complexidade seja usada como solvente moral. Um passado difícil exige mais rigor, não menos. Exige que se olhe para a violência de todos sem perder a capacidade de distinguir uma democracia imperfeita de uma ditadura prolongada.
Uma leitura do Centro de Estudos Maçónicos My Fraternity
O perigo começa quando a ditadura passa a ser recordada pelos seus horários, pelas ruas aparentemente limpas, pelos ministros que sabiam fazer contas, pela ordem nos comboios, pela autoridade nas escolas, pela reverência nas cerimónias, pela sensação de que alguém mandava e todos sabiam obedecer. Depois chega a frase de sempre, quase humilde, quase doméstica: ao menos havia estabilidade.
Esse “ao menos” é pequeno, mas tem portas largas. Por ele passam a nostalgia, o medo, a impaciência com a democracia, o desprezo pelos parlamentos, a irritação com a imprensa livre, o cansaço perante a discordância. Por ele pode voltar a entrar a ideia de que um povo vive melhor quando pensa menos, escolhe menos e obedece mais. A memória de Franco continua perigosa precisamente aí: não no cadáver do ditador, mas na suavidade com que a palavra ordem ainda consegue seduzir sociedades cansadas da liberdade.
Para uma perspetiva complementar sobre memória maçónica, património e Espanha, pode ler-se também o artigo do My Fraternity sobre o acordo histórico a favor do Templo Maçónico de Santa Cruz de Tenerife.
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