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ISTO NÃO É UM TEXTO

Magritte escreveu outrora, sob um cachimbo, que aquilo não era um cachimbo. Mas também não afirmava que fosse outra coisa. Marcel Duchamp deu o nome de fonte a um urinol. Calculo que por então André Breton andasse ocupado com a legibilidade do Absurdo, convocando para o efeito as teoria de Freud, o qual, de resto, se salvaguardou de quaisquer comprometimentos.


O mundo vivia então o pavor homicida da primeira guerra mundial. Será de perguntar se teria havido surrealismo sem este pavoroso matadouro. Acho que não. Ou, pelo menos, é de calcular que talvez se tivesse produzido um outro surrealismo, sem as girafas de fogo de Salvador Dali e os oníricos fustes metafísicos de De Chirico.


É para mim evidente que a raiz da carência de sentido das coisas – e da vida – está no fundo de nós mesmos, que só podemos representar a inconsciência, a inconsistência, o absurdo, através da simulação de um buraco negro.


É provável, portanto, que o surrealismo tivesse acabado por surgir. Mas não o que conhecemos (conheceremos deveras?). Seria eventualmente possível que sem a guerra também acabassem por aparecer telas pintadas de uma só cor, de vermelho, por exemplo, que certificasse que por ali andou Moisés, quando Iavé abriu o mar chamado dessa cor para esgueirar por ali o Povo Eleito.


Do mesmo modo que os seres humanos foram esgotando a compreensão das suas pulsões, assim a Natureza lhes pareceu portadora de outras salvações, que já não estavam dentro de cada alfabeto de sobrevivência.


Fizeram-se tentativas criativas muito peculiares, desde as da escrita automática à da garatuja simiesca dos macacos, com veleidades de obra artística. Lautréamont convocou recônditos uivos para redigir os seus "Cantos de Maldoror".

O maior de todos os surrealistas – ou pelo menos aquele de que eu mais gosto -, Guillaume Apollinaire, recebeu em combate um estilhaço de morteiro (seria de morteiro?) numa têmpora, que já ANTES de o ferir fora reproduzido numa tela, espantosamente premonitória, de Giorgio De Chirico.


Pode perguntar-se pelo sentido desta premonição. Ou pela ausência de tal sentido premonitório. É por isso que eu nunca desdenho de uma boa profecia cantada por uma cigana sobre a palma da minha mão. Não pela cigana; nem sequer pela profecia – apenas por mim. Por mim, que bracejo no mar imenso dos signos, sem que deles consiga saber mais do que ligeiro rumor das folhas do Outono, quando elas decidem cair. Afinal, o ferimento de Apollinaire, adivinhado por De Chirico, tinha a forma de uma estrela. E isso nunca foi devidamente explicado.


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