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ALBERT PIKE E OS QUE ELE ESQUECEU

  • há 8 horas
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Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry tem setecentas e oito páginas. Foi publicado em 1871 e ainda hoje é distribuído em algumas lojas maçónicas a novos membros no momento da sua iniciação.


É um livro construído sobre a ideia de que os graus da Maçonaria são um sistema de obrigações morais progressivas: cada juramento acrescenta uma camada de responsabilidade ao anterior. O seu autor foi Albert Pike, advogado do Arkansas que tinha combatido na Guerra de Secessão do lado da Confederação e que passou as décadas seguintes em Washington a sistematizar a filosofia do Rito Escocês para a jurisdição sul dos Estados Unidos.


Pike morreu em 1891.


Tornou-se Soberano Grande Comendador da Maçonaria.


Traduziu Horácio.


Escreveu centenas de poemas, a maior parte esquecidos.


Capa editorial com a figura de Albert Pike em primeiro plano e fotografia antiga de descendentes de escravizados, simbolizando a tensão entre memória histórica e esquecimento.
Entre o monumento e a memória, há nomes que ficaram de fora. A história que se ergue em pedra raramente coincide com a que sobrevive nas pessoas.

Não há registo de que tenha refletido publicamente, nas suas últimas décadas, sobre o que fez no outono de 1861, quando chegou ao Território Indígena — o que é hoje o Oklahoma — como diplomata do governo confederado com poderes para negociar alianças com as cinco grandes nações das planícies do Sul.


As nações com quem negociou conheciam bem a escravatura. Praticavam-na. Alguns dos seus líderes tinham dezenas de escravos nas suas plantações de algodão, seguindo o modelo dos proprietários brancos do Mississippi e do Alabama que tinham sido os seus vizinhos durante décadas.


A Nação Cherokee tinha chegado ao Território Indígena carregando os seus escravos durante a Marcha das Lágrimas de 1838, quando o governo dos Estados Unidos os forçou a abandonar as suas terras ancestrais na Geórgia. Levaram os escravos como se levam os móveis de uma casa que não é nossa.


Pike saiu daquelas negociações com tropas. Vários milhares de guerreiros que combateriam sob a bandeira confederada numa guerra dentro da guerra que raramente aparece nos compêndios de história convencional. Foi promovido a general de brigada. Comandou esses homens na Batalha de Pea Ridge, em março de 1862, no Arkansas. A batalha foi uma derrota confederada. As circunstâncias em que algumas das tropas indígenas de Pike se comportaram — há relatos de mutilações de soldados da União — geraram uma investigação militar que nunca chegou a uma conclusão definitiva. Pike acabou por se demitir do comando e passar o resto da guerra em conflito aberto com as autoridades de Richmond, a quem acusava de ter abandonado as tribos.


Depois da guerra, foi para Washington. Tornou-se advogado, escritor, filósofo maçónico. Escreveu Morals and Dogma. Traduziu Horácio. Morreu em 1891.


Os Maçons ergueram-lhe uma estátua em Washington. O monumento celebra o grão-mestre, o autor do tratado filosófico, o construtor da fraternidade. Não menciona a Confederação. Não menciona o Arkansas. Não menciona o outono de 1861.


Em 2020, durante os protestos que se seguiram ao assassínio de George Floyd em Minneapolis, a estátua foi derrubada e incendiada.


O governo federal recolheu-a e colocou-a em armazém. Ficou ali cinco anos.

Em agosto de 2025, a administração Trump anunciou a restauração e reinstalação do monumento. A decisão insere-se num esforço mais amplo de recuperação de monumentos confederados e de reposição de nomes militares associados a generais do Sul.


É tentador contar esta história como uma história sobre as guerras culturais americanas — sobre a luta pelo significado dos monumentos, sobre o que deve ou não deve ocupar o espaço público de uma democracia. É tentador porque é essa a história que os dois lados do debate político americano querem contar. Os que defendem a reinstalação falam de história e de respeito por figuras complexas. Os que se opõem falam de que honrar um general confederado numa capital construída por escravos é uma escolha, não uma inevitabilidade.


Há uma terceira história aqui, mais antiga e mais estranha, que nenhum dos dois lados consegue absorver.


No Oklahoma, nos condados de Muskogee e de McIntosh, vivem hoje vários milhares de pessoas que se designam Freedmen — descendentes dos escravos que as Cinco Nações Civilizadas possuíam antes e durante a Guerra de Secessão. São afro-americanos que cresceram dentro das culturas tribais — Cherokee, Creek, Seminole, Choctaw, Chickasaw —, que aprenderam as línguas indígenas, que enterraram os seus mortos nos cemitérios tribais, que se casaram com membros das tribos durante gerações.


Depois da guerra, os tratados de reconstrução de 1866 — os tratados que os Estados Unidos impuseram às tribos que tinham apoiado a Confederação — obrigaram-nas a libertar os escravos e a conferir-lhes cidadania tribal plena. Era a condição da reconciliação com Washington. As tribos aceitaram. Durante décadas, os Freedmen votaram nas eleições tribais, receberam terras, tiveram acesso aos serviços das nações.


No final do século XX, as tribos começaram a rever as suas constituições. Uma a uma — a Cherokee em 2007, a Creek em processos mais lentos e litigiosos — começaram a excluir os Freedmen da cidadania tribal, argumentando que só podiam ser membros plenos quem tivesse sangue indígena verificável nos registos de ancestralidade.


O argumento tem uma lógica: a soberania tribal, reconhecida pela lei federal americana, inclui o direito de as nações definirem os seus próprios critérios de pertença. Mas tem também uma história: as tribos estão a excluir pessoas cujas famílias ali estiveram durante séculos, e que chegaram ao Território Indígena como propriedade dos antepassados dos atuais membros.


O caso Cherokee chegou aos tribunais várias vezes. Em 2017, um tribunal federal decidiu que os Freedmen tinham direito à cidadania Cherokee. A nação Cherokee resistiu. O Congresso americano entrou no debate. A questão está por resolver.

Albert Pike é um problema para qualquer narrativa simples sobre a Guerra de Secessão.

Não era um plantador do Sul profundo. Era um homem do Massachusetts que se tinha mudado para o Arkansas quando tinha vinte e dois anos, atraído pela fronteira aberta. Lutou na Guerra México-Americana. Tornou-se advogado especializado em direito indígena — representou várias tribos em litígios contra o governo federal antes da guerra. Quando a secessão chegou, escolheu o lado dos estados que melhor conhecia. Escolheu também, talvez inevitavelmente, o lado que as tribos com quem trabalhava tinham escolhido.


Era poeta. Traduziu Horácio. Numa das suas composições mais conhecidas — um texto que começa com versos sobre cada manhã ser um mundo novo — há uma qualidade de esperança fácil que contrasta de modo desconcertante com a vida que levou. Não é uma ironia que se preste a piada. É o tipo de contradição que existe nos arquivos de qualquer vida longa: os documentos não se cancelam entre si, acumulam-se.


A Maçonaria recuperou Pike porque via nele o grande sistematizador dos seus rituais e filosofia. O que o monumento celebra não é o general confederado mas o grão-mestre, o autor do tratado filosófico, o homem que passou décadas a construir uma fraternidade. É uma distinção que os seus críticos rejeitam como desonesta. É uma distinção que os seus defensores insistem em fazer como se fosse possível separar as partes de uma vida.


O que distingue Pike de outros generais confederados cujos monumentos foram removidos nos últimos anos é precisamente o que torna a sua história mais difícil de contar.


Robert E. Lee era um homem do Sul que escolheu o Sul. A narrativa é linear, mesmo que dolorosa. Muitas das estátuas de Lee foram erguidas décadas após a guerra, durante períodos de intensificação da segregação racial, com propósitos que vão além da simples memória histórica. As motivações são legíveis.


Pike é diferente. O monumento que lhe foi dedicado celebra uma carreira filosófica e fraterna. E a guerra em que participou — a guerra pelo Território Indígena, com aliados que eram ao mesmo tempo vítimas históricas do expansionismo americano e proprietários de escravos — não cabe nos esquemas habituais.


As Cinco Nações Civilizadas foram expulsas das suas terras pelo governo federal americano. Foram forçadas a caminhar centenas de milhas, morrendo aos milhares, para um território que Washington reservou para elas à força. Quando a guerra civil chegou, o governo federal que lhes tinha feito isso estava do lado da União. A Confederação, que se apresentava como alternativa a esse governo, oferecia-lhes representação própria, um futuro diferente.


Que parte dessas nações tenha escolhido a Confederação não é apenas uma história de cumplicidade com a escravatura. É uma história de povos que avaliaram duas opções — ambas criadas por e para pessoas brancas — e escolheram a que lhes parecia menos má. Ou a que protegia o que tinham construído nas décadas anteriores, incluindo as suas próprias economias esclavagistas.


Que essas mesmas pessoas possuíssem escravos, que tratassem seres humanos como propriedade, é uma parte inseparável da história. Não cancela a violência que sofreram. Não é cancelada por ela. As duas coisas existem ao mesmo tempo, nos mesmos arquivos, nas mesmas famílias, no mesmo território. Os Freedmen são a prova material dessa sobreposição.


Os Freedmen são o detalhe que não cabe.


Não cabem na narrativa progressista sobre os monumentos confederados, que precisa de vítimas claramente identificáveis e perpetradores claramente identificáveis. Os Freedmen foram escravizados por nações que foram elas próprias vítimas do colonialismo americano. Quem deve reparação a quem? A pergunta não tem resposta simples, e as narrativas que dependem de respostas simples evitam-na.


Não cabem na narrativa conservadora sobre herança e complexidade histórica, que invoca a necessidade de honrar figuras que fizeram coisas boas e más. A história dos Freedmen é uma história de pessoas a quem a complexidade histórica está a ser usada como argumento para lhes negar direitos concretos no presente. A soberania tribal que protege o direito das nações a definirem a sua identidade é também a soberania tribal que permite excluir as famílias que chegaram como escravos.


O monumento foi reinstalado. O pedestal foi ocupado de novo. Alguém protestou. Alguém defendeu. Os jornais cobriram mais um episódio das guerras culturais americanas, com os mesmos campos, as mesmas posições, os mesmos argumentos.


No Oklahoma, nos condados de Muskogee e de McIntosh, os Freedmen continuam a litigar o seu direito a ser considerados membros plenos das nações cujos antepassados os trouxeram para aquele território há cento e oitenta anos.


A questão central dos seus casos legais é, no fundo, simples: um tratado assinado em 1866 prometia-lhes cidadania. As nações dizem que a sua soberania permite rever essa promessa. Os Freedmen dizem que essa soberania não pode apagar uma obrigação contratual ratificada pelo Congresso americano.


Não é uma questão diferente da questão do monumento. É a mesma questão, formulada de outra maneira: quando é que uma promessa histórica — feita em papel, assinada, arquivada — tem força suficiente para obrigar o presente?


Albert Pike passou décadas a construir um sistema de resposta para esse tipo de pergunta. A Maçonaria é, na sua essência, um sistema de obrigações. Os seus graus são juramentos. Os seus rituais são promessas repetidas em voz alta, geração após geração, entre homens que se comprometem a não esquecer.


A ironia é pesada demais para ser elegante. Fica aqui, sem resolução, como ficam a maior parte das histórias que a América prefere não contar.



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