Actas do Colóquio Internacional “A Grande Guerra – Um Século Depois”| Prof doutor António Ventura

Actas do Colóquio Internacional “A Grande Guerra – Um Século Depois”, Academia Militar, 2015, pp. 33-46. António Ventura Professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa


Quando procuramos compreender o envolvimento de Portugal na Grande Guerra, resultam de grande utilidade os estudos sectoriais, incidindo sobre instituições, organizações e entidades particulares. O recurso a esses estudos monográficos ajudam a elaborar um quadro mais completo da forma como a sociedade portuguesa reagiu perante o conflito nas suas diferentes fases, desde as primeiras manifestações, em Julho de 1914, a discussão sobre o apoio a dar aos Aliados, a participação ou não na guerra no teatro europeu, o evoluir dos acontecimentos dentro e fora do país e, finalmente, as negociações de paz e suas consequências. Já foram produzidos alguns trabalhos significativos, mas muito há a fazer. Refiro-me a estudos sobre os partidos republicanos, o movimento monárquico, as associações sindicais e patronais, a Igreja Católica e as igrejas protestantes, as associações de carácter cívico, cultural e de instrução, etc.


A Maçonaria ganhou um cunho republicano depois de 1910, mas não pode ser considerada no seu todo como uma organização de pressão, com uma agenda determinada de cariz político e até partidário, dada a pluralidade de opções dos seus membros, o que inviabilizava, à partida, o alinhamento com um agrupamento 34 Actas do Colóquio Internacional “A Grande Guerra: Um Século Depois” determinado. Basta comprovarmos que a ela pertenceram políticos dos mais diversos partidos, o que desmente qualquer intuito de controlo e manipulação por parte daquela instituição. De facto, a ela pertenceram dirigentes do Partido Republicano Português como Afonso Costa e António Maria da Silva, do Partido Republicano Evolucionista como António José de Almeida e Simões Raposo, da União Republicana como Brito Camacho e o almirante Tasso de Figueiredo, do Partido Centrista Republicano como o general Simas Machado e Alberto Osório de Castro, do Partido Nacional Republicano (sidonista) como João Tamagnini Barbosa e José Alfredo de Magalhães, do Partido Republicano Conservador como os capitães José Marcelino Carrilho e João Sarmento Pimentel, do Partido Republicano Liberal como António Granjo e Tomé de Barros Queirós, da Federação Nacional Republicana como Machado Santos e o capitão-de-fragata José de Freitas Ribeiro, do Partido Republicano de Reconstituição Nacional como o general Sá Cardoso e José Barbosa, do Partido Republicano Nacionalista como o comandante José Mendes Cabeçadas e Alberto de Moura Pinto, da União Liberal Republicana como Constâncio de Oliveira, da Esquerda Democrática como José Domingues dos Santos e Manuel Gregório Pestana Júnior, do Partido Socialista como Ramada Curto e José António da Costa Júnior, e até o primeiro secretário do Partido Comunista Português, Carlos Rates, foi maçon… Os exemplos são infindáveis, mas atestam bem que, tendo como denominador comum os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, cada um assumia individualmente posições distintas sob o ponto de vista partidário. Durante a I República, de 1910 a 1926, cerca de metade dos ministros, senadores e deputados foram maçons, bem como três dos sete Presidentes da República e 19 dos 31 chefes de governo. Mas isto só por si nada quer dizer, uma vez que, individualmente, os maçons assumiam as posições que a sua consciência ditava.


Houve, assim, maçons que apoiaram a entrada de Portugal na Grande Guerra, como Afonso Costa e António José de Almeida, e outros que se manifestaram contra, como Brito Camacho e Machado Santos. Não são, porém, as posições individuais que nos interessam aqui, mas sim as institucionais, isto é, as que vinculavam a Maçonria como organização. E essas eram assumidas pelos seus órgãos: o Grão-mestre, através de mensagens e intervenções, do Conselho da Ordem (o poder executivo), através de circulares, e da Grande Loja ou Grande Dieta (o poder legislativo). Há ainda a registar tomadas de posição de Lojas, especialmente na sua versão profana (grémios) as quais gozavam de uma certa autonomia. Quando a guerra eclodiu, em Agosto de 1914, existiam em Portugal duas Obediências Maçónicas, duas estruturas federativas que agrupavam Lojas e Triângulos: o Grande Oriente Lusitano Unido, cujo Grão-mestre era, desde 1907, Sebastião de Magalhães Lima, e o Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês, uma dissidência do GOLU em Agosto de 1914, que elegeu como Soberano Grande Comendador o general Luís Augusto Ferreira de Castro. Vejamos qual foi a posição de cada uma em relação à guerra.


Ver mais, AQUI



#AntónioVentura #AGrandeGuerra