A ESCADA DE JACÓ NA MAÇONARIA


A escada de Jacó é um dos temas mais fantasiosos no simbolismo teológico, se a sua leitura se reduzir exclusivamente à teologia. Trata-se de uma famosa interpretação da não menos famosa escada.


Gostaria que estudassem este símbolo no tempo oportuno. Certamente não é fácil desligarem-se de ideias e mitos realizados. Mais eis o valor da Maçonaria: a escada do painel que consta na decoração das Lojas é uma alegoria referente à elevação moral do homem, e não a caminhada em direcção à morada do Altíssimo.


A fundamentação: Quem foi Jacó? O que é uma escada em termos alegóricos?


“Jacó era filho de Isaac e conseguiu enganar o pai fazendo-se passar pelo irmão primogénito. Assim, recebeu a bênção paterna nesses termos: “Que Deus te conceda o orvalho do céu e a fertilidade da terra, trigo e vinho em abundância. Sirvam-te povos e prostrem-se diante de ti nações; sê um senhor de teus irmãos e diante de ti prostrem-se os filhos de tua mãe. Maldito quem te amaldiçoar e bendito quem te abençoar”. E prossegue Isaac dizendo: “Não cases com nenhuma das moças de Canaã. Vai a Padã-Aram, e casa-te lá com uma das filhas de Labão, irmão de tua mãe. Concedo-te a bênção de Abraão, a ti e à tua descendência, a fim de possuíres a terra em que vives como estrangeiro.”


Prosseguindo: “Jacó saiu de Bersabéia e, ao se dirigir para Harã, alcançou um lugar onde se dispôs a passar a noite, pois o sol já se havia posto. Pegou uma das pedras do lugar, colocou-a como travesseiro e dormiu. Então, teve um sonho: Via uma escada apoiada no chão e com a outra ponta tocando o céu. Por ela subiam e desciam os anjos de Deus. No alto da escada estava o Senhor que lhe disse: ‘Eu sou o Senhor, Deus de teu pai Abraão, o Deus de Isaac. A ti e a tua descendência darei a terra sobre a qual estás deitado. Tua descendência será como o pó da terra e te expandirás para o ocidente e para o oriente, para o norte e para o sul.


Em ti e em tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra. Estou contigo e te guardarei aonde quer que vás, e te reconduzirei a esta terra. Nunca te abandonarei até cumprir o que te prometi”. Ao despertar, Jacó disse consigo:

“Como é terrível este lugar! Sem dúvida o Senhor está neste lugar e eu não sabia. Isto aqui só pode ser a casa de Deus e a porta do céu”. Atemorizado, levantou-se, tomou a pedra que lhe servira de travesseiro, e a erigiu em estela (monumento monolítico feito em pedra), derramando óleo por cima e chamando ao lugar de Betel (Casa de Deus).


Jacó fez um voto, dizendo: “Se Deus estiver comigo e me proteger nesta viagem, dando-me pão para comer e roupa para vestir, e se eu voltar são e salvo para a casa de meu pai, então o Senhor será meu Deus. Esta pedra que erigi em estela será transformada em casa de Deus e dar-te-ei o dízimo de tudo que me deres”.


Aqui está a origem e o significado da escada “de Jacó”. Foi uma visão tida em sonhos de uma escada apoiado no chão e com a outra ponta tocando o céu. Em sonhos, repito, Jacó percepcionou anjos de Deus que subiam e desciam.


Mas Jacó não subiu nem desceu pela escada, pois, como ele mesmo disse amedrontado, aquele lugar era terrível, sem dúvida a casa de Deus e a porta do céu (o terribilis est locus iste). Jacó não ousou prosseguir porta adentro nem subir escada acima. Apenas tomou a pedra que lhe servira de travesseiro e fez dela um altar comemorativo daquele acontecimento. E partiu dali ao encontro de Labão, “pai de Raquel serrana bela” – conforme versou Camões: “Mas não servia ao pai, servia a ela, e a ela só por prémio pretendia. Porém o pai, usando de cautela, em lugar de Raquel lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos lhe fora assim negada a sua pastora, começa de servir outros sete anos, dizendo: — Mais servira, se não fora para tão longo amor tão curta a vida!”


O que se vê nalgumas imagens existentes nas nossas Lojas é a escada “de Jacó” , que mais não é que a representação da hierarquia dos maçons e reinos de vida.


Devo ainda esclarecer que a escada de catorze degraus na Maçonaria é também associada a outros ritos que não o escocês antigo e aceite e a outros Graus que não os simbólicos. Concluindo-se que nem toda escada deve ser confundida com a do sonho de Jacó.


Para complicar ainda mais o pensamento, uma indevida simbiose com a Teologia Católica misturou o sonho de Jacó (hebreu) com as Virtudes Teologais apregoadas, pela primeira vez na História, por Santo Ambrósio de Milão, Santo Agostinho de Hipona, São Tomás de Aquino e São Roberto Belarmino. Essa interação entre simbolismo maçónico e elementos da fé cristã (notadamente a Católica Apostólica Romana) nasceu da tentativa de estabelecer um diálogo entre a fé e a razão. Mas não consta que esses Santos tenham subido a escada “de Jacó” nem que tenham sido iniciados na Maçonaria.


Sinto poder decepcionar, mas há culturas maçónicas que são mais teológicas que a própria religião.


Continuam insistindo nessa mesma tecla (ou nessa mesma escada) e dessa forma desconhecem a História e a própria Maçonaria.


A escada que aparece num dos painéis do Grau não é a escada dos sonhos de Jacó, embora muitos artistas inflamados delirem ao desenhar anjos no topo da mesma. E fazem eles muito bem. Tudo é símbolo. A escada do painel, que de forma alguma deve constar da decoração das Lojas, pendurada no tecto, mas apenas e só para a decoração de um grau é uma alegoria referente à elevação moral do homem, e não à caminhada em direcção à morada do Altíssimo.


A Maçonaria, não sendo uma religião, há de permanecer à margem de quaisquer sectarismos. Um muçulmano, por exemplo, não verá o Jacó hebreu numa escada nem as virtudes cardinais de São Tomás de Aquino. Um budista menos ainda! Mas todas as religiões entenderão a escada como a elevação, valorização e crescimento humanos.