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ALGUMAS NOTAS SOBRE PITÁGORAS E SOBRE O PITAGORISMO

ALGUMAS NOTAS SOBRE PITÁGORAS E SOBRE O PITAGORISMO


Não se sabe se Pitágoras alguma vez teve existência histórica. O que se sabe é que nesse recuado século VI antes de Cristo, na ilha de Samos, junto à costa marítima da actual Turquia, se criou uma comunidade mística muito singular, à qual foi atribuído o seu nome. A tradição também nos diz que, por motivos obscuros, esse real ou imaginário Pitágoras abandonou Samos e rumou para a Magna Grécia, designação que se reportava à região do sul da actual Itália. Aí teria criado uma comunidade similar à de Samos, prosseguindo depois a expansão das suas doutrinas pelo Norte de África e em direcção ao Egipto.


O pouco que se conhece sobre o Pitagorismo tem a sua principal razão de ser no facto de imperarem entre os membros os votos de silêncio e de austeridade. SE o Dr Rio fosse então governante das regiões por onde grassou o pitagorismo é muito natural que, irritadíssimo, intimasse os pitagóricos a declararem a sua pertença a tais comunidades secretas ! E afigura-se-me que conheceria por parte dos pitagóricos a mesma resistência que a Maçonaria agora reevela à sua arremetida de bruto primário.


Nas congregações pitagóricas imperava um ideal filosófico de conhecimento radical. Significa isto que o pitagorismo pretendia descobrir a realidade íntima do Todo, do mundo, do cosmos, da "physis" , palavra que significava o que hoje equivale ao nosso conceito de Natureza. Esforçavam-se por descobrir o segredo mais íntimo dessa Natureza, a sua "archê", o seu elemento constitutivo decisivo e primordial. Um também historicamente incerto Tales sustentava , ao tempo, que essa "archê" era o húmido, o aquoso, a água ; um tal Anaximandro falara num elemento Infinito e subtil, num "apeiron" divino e ilimitado, visto como um fundo primordial eterno, a partir do qual se gerariam todas as coisas : Anaximenes , por sua vez, entendia que esse elemento genético deveria identificar-se com o ar, vapor também ele de dimensões incomensuráveis , motor e elemento fundamental de todas as coisas, ou seja do genesíaco desdobramento do mundo.


Mas as comunidades pitagóricas, ao darem-se à concentração e ao estudo místico da Natureza, dessa tal "physis", tinha encontrado outra resposta para a caracterização da "archê", desse tal elemento fundamental e fundamentante. Esse elemento era a medida, o quantirtativo nas suas mútuas relações, o numérico nas suas infinitas correlações. Tudo era matematizável. Nas relações matemáticas se reconcentravam os segredos de tudo quanto existe.


Esta tradição marcará profundamente a Cultura ocidental. Platão fará escrever no frontão da sua escola, a Academia, o seguinte mote : " não entre aqui quem não souber Geometria". O neo-platonismo foi todo percorrido por esta pulsão matematizante, de essência pitagórica. O sábio Galileu escreverá mais tarde o que Einstein implicitamente também consentiu e assentiu : " o mundo está escrito em linguagem matemática" !

O pitagorismo vê no numérico, com tudo aquilo que ele comporta de harmoniosa proporção, a alma religiosa e mística do mundo. Por tal facto, o quantitativo é simbolicamente representado nas comunidades pitagóricas por pontos que se dispõem em figuras geométricas , cada vez mais complexas. Para uma perfeita compreensão do pitagorismo é necessário salientar que não é a matemática que se descobre , " a posteriori" , ou seja, no depois da descoberta do mundo. A constituição do mundo é já matemática a partir da sua verdade mais prévia , ou seja, a matemática e as relações da quantidade formam o mundo, são o Todo.


Foi igualmente o pitagorismo que ofereceu à tradição cultural do Ocidente um outro tema eterno : o da alma, declarada como imortal. Platão não poderia ter falado em Mundo Inteligível e em Formas Eternas, de carácter divino, se não tivesse assimilado muito do que o pitagorismo afirmou- O cristianismo não poderia ter sido o que foi, na sua convicção espiritualista e na sua proposta do Juízo Final e do resgate das almas repletas de bondade se o pitagorismo lhe não tivesse desbravado o caminho. O monaquismo medievo não teria tido a importância decisiva que teve e o catolicismo actual não poderia existir com o perfil que agora apresenta sem este envasamento pitagórico-platónico de origem.


Mas existe no conceito pitagórico de alma uma particularidade que só parcialmente se transferiu para o cristianismo e, através dele, para a religiosidade actual. O que se absorveu foi a ideia de que a alma era imortal e de que o seu destino final dependia da escolha de uma vida impecável, durante a existência concreta do viver concreto. O que se ignorou foi o tema, fundamental para os pitagóricos, da transmigração das almas. Na morte, as almas evadem-se do corpo morto e procuram outro corpo , para neles persistirem. Mas essa transmigração não se faz apenas entre corpos humanos. A alma pode decair ou elevar-se, de acordo com o exemplo, edificante ou deprimente, da vida até aí vivida. Assoma já aqui a ideia de pecado. E a do resgate das almas pelo mérito. E até, talvez tendencialmente, a ideia da punição infernal. Se a alma viveu uma vida boa, encaminhar-se-á para um outro corpo , mais glorioso e limpo do que aquele que antes habitava. Mas se a vida vivida foi censurável ou até criminosa, a alma pode vir a habitar o corpo de um animal imundo, como o cerdo ou o porco.


Do que foi dito infere-se uma outra passada lógica fundamental : os pitagoristas ou pitagóricos foram dos primeiros vegetarianos da história da alimentação. Recomendavam a irradiação total da carne na dieta alimentar. É que essa carne ingerida poderia ser a "casa" de uma alma humana decaída. No limite, o comedor de carne poderia estar a ingerir a alma transviada e punida de um parente ou de um amigo, falecido entrementes. A ingestão de carne animal era vista como um sacrilégio.


Este pitagorismo não é valioso pela sua escrupulosa validação científica, nos termos que hoje podemos atribuir ao conceito de "ciência". O pitagorismo e os temas desenvolvidos por toda a filosofia inicial é um tesouro inexaurível de um cofre que contém o primeiro vagido do pensamento humano. Arriscamo-nos a nada entender do pensamento actual, das concepções ainda hoje dominantes, se negligenciarmos os primeiros maravilhosos passos com que os homens forraram a sua humanidade.

@Autor: - A.C.H.

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My Fraternity
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May 10, 2021

Excelente!

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