top of page

A MISOGINIA NA MAÇONARIA

Algumas Obediências, ainda interditam a admissão de mulheres como obreiras.


E fazem-no por várias razões: De que as tradições na maçonaria, se basearem em "pedreiros" medievais, que não permitiam às mulheres participarem, por causa da cultura da época; De que a tendência predominante das Grande Lojas, é a adopção dos Landmarks estabelecidos pela Maçonaria no início do século XVIII, que são consideradas imutáveis, um dos quais, estabelece “[…]que um Maçom seja um homem […]”, vedando assim o acesso a mulheres. Por último, a admissão de mulheres quebraria a estrutura organizativa de qualquer Grande Loja.


Contra o primeiro argumento, há evidências, embora o fenómeno fosse raro, de que algumas mulheres presidiram e acederam a várias corporações, durante o período da maçonaria operativa. Por sua vez, alguns dos estatutos de idade média (idade de referência), atestam a presença da mulher na Maçonaria. É o caso na França, do Livro dos Ofícios, escrito por Etienne Boileau em 1268; na Inglaterra, dos Estatutos da Guilda de Norwich, de 1375; na Escócia, os Estatutos da Loja de York, de 1693 que diziam: “Aquele ou aquela que se tornar Maçom deve fazer seus juramentos colocando a mão sobre a Bíblia”. Outros documentos de Lojas inglesas citam, nominalmente, várias mulheres-maçons.


As Ordenações da Loja Corporação de Corpus Christi, da cidade de York, de 1408, também dizem o seguinte: “Serão admitidos na Ordem todos os candidatos de ambos os sexos, desde que exerçam profissão honesta, tenham boa reputação e sejam de bons costumes”. No mesmo manuscrito lê-se ainda que os Irmãos e Irmãs deverão prestar o juramento sobre a Bíblia e também se faz alusão à Dama, particularmente no compromisso do Aprendiz, quando ele jura obedecer ao Mestre ou à Dama.


Por último, o Manuscrito Régio, para quem acredite na sua autenticidade, hipoteticamente escrito em 1390, em nenhum momento menciona que a Ordem seja restrita aos homens. Ao contrário, prova a presença da mulher, ao afirmar no seu item 10º, versos 203 e 204: “Que nenhum Mestre suplante outro, senão que procedam todos entre si como Irmão e Irmã”. Por sua vez, no item 9º, versos 351 e 352, lê-se o seguinte: “Amavelmente, servindo-nos a todos, como se fossemos Irmão e Irmã”.


Em síntese, a presença da mulher na Maçonaria está documentada no período que vai de 1268 a 1723, altura das constituições de Anderson, isto é, durante um período de 445 anos. A exclusão da mulher da Maçonaria viria a ocorrer só a partir da criação dos Landmarks, contrariando assim a tradição e os antigos usos e costumes da maçonaria operativa, perdendo a mulher um direito que, por séculos, lhe pertenceu.


Quanto ao segundo argumento, é bom lembrar que as constituições de Anderson, ao excluírem a mulher da maçonaria, foram influenciadas pela moral dominante da época, que via com reserva o convívio entre sexos fora do âmbito familiar, aconselhando por isso aos membros da loja, a respeito das mulheres, a sua não admissão em loja, e de que estas “[...] devem ser boas mulheres e leais, nascidas livres, maduras e discretas..."


E foi a mesma razão da “pureza dos costumes” que levou o cavaleiro de Ramsay, a dizer no seu discurso de 1736 que “[…]há temores de que o amor caindo com seus encantos, faça esquecer a fraternidade. “


Os Landemarks foram portanto instituídos num determinado contexto histórico e social, que nada tem a ver com o actual. Defender-se que são imutáveis, é o mesmo que pretender aplicar as Ordenações Manuelinas aos tempos actuais, o que é um anacrónico absurdo, porque os homens, a sociedade e os costumes já não são os mesmos.

E que elas foram letra morta, desde o início, a respeito da proibição da iniciação de mulheres na maçonaria, compravam-no historicamente a iniciação de muitas mulheres e Ordens que admitiam mulheres, desde as constituições de Anderson.


A primeira mulher maçom, pelo menos a mais conhecida, do tempo da maçonaria especulativa, foi Elizabeth Aldworth, na Irlanda em 1732, que no seu tempo até foi conhecida como “senhora maçon”.


Clavel afirma que a Franco-Maçonaria das mulheres foi instituída em 1730, com a Ordem da Fidelidade. Posteriormente apareceram a Ordem dos Cavaleiros e Heroínas da Âncora em França, Ordem de Moisés na Alemanha, e Ordem dos Lenhadores em Itália, que admitiam a participação de mulheres.


Já em 1775, foi eleita Grão-Mestre da Loja Saint Antoine, na França, a Duquesa de Bourbon, e em 1782, Caliostro designou a mulher, Laurenza, Grão-Mestre de uma Loja Adoptiva feminina, onde seriam iniciadas várias damas da nobreza.


O próprio conde Calistro, criou em Lyon em 1786, o Rito Egípcio da Maçonaria Andrógina, que teve a princesa Lambelle como primeira Grão-Mestre Honorária.


No que concerne ao último argumento, convém lembrar que em Portugal, em 1881, levanta colunas a Loja Feminina “Filipa de Vilhena”, da Maçonaria de Adopção inscrita no Grande Oriente Lusitano Unido, precursor do Grande Oriente Lusitano que é a segunda potência maçónica mais antiga do mundo (1802), mas já antes a Marquesa de Alorna tendo sido iniciada maçona na Loja “Virtude” de Lisboa, em 1814),


Em 1904 levantaram colunas em Lisboa, sob os auspícios do Grande Oriente Lusitano Unido, as Lojas do Rito de Adopção “Humanidade” e “Oito de Dezembro”, sendo na primeira dessas que será iniciada (em 1907) Adelaide Cabete (com o nome simbólico Louise Michel). Anos depois, em 1923, as Lojas Femininas do Rito de Adopção abandonam o Grande Oriente Lusitano e Adelaide Cabete, Venerável Mestra da Loja “Humanidade”, onde atingiu o 18.º Grau, pede e obtém filiação no movimento internacional da Maçonaria Mista, Le Droit Humain. Ao longo dos três anos seguintes, outras seis Lojas portuguesas (de Lisboa, Alcobaça, Portalegre e Beja) filiam-se no Droit Humain, constituindo uma Jurisdição Portuguesa presidida por Adelaide Cabete.


Portanto, até na tradição mais antiga do GOL, a segunda obediência mais antiga do mundo, há aceitação de iniciação de mulheres. Essa tradição só se perdeu quando a lojas de adopção se filiaram no Droit Human.


Actualmente, a tendência na maioria dos países europeus, é a de que as mulheres podem participar em obediências mistas ou exclusivamente femininas. Entre os quais, incluem os mais importantes Lojas como a Ordem Maçónica Mista Internacional "Le Droit Humain" e geralmente, as mulheres das Grandes Lojas para Mulheres de França.


O carácter exclusivista e masculino de algumas obediências é que contraria a tradição histórica, a essência dos Antigos Deveres, e o mais grave ainda, contraria a Divisa da Ordem por negar o princípio da Igualdade.


Impede ainda, a adequação à Tradição e aos parâmetros que regem a evolução, o progresso das sociedades humanas, em que assistimos à emancipação da mulher, em pé de igualdade com os homens em todos os aspectos da sociedade.


A marcha da história é irreversível, e inevitavelmente um dia todas as Obediências admitirão, como é de justiça, mulheres no seu seio, quer em lojas femininas, mistas ou simplesmente de adopção.


Este talvez ainda não seja o momento oportuno, porque tal desígnio ainda não é consensual. E o mesmo poderia criar clivagens por exemplo no GOL, Obediência a que pertenço, entre os defensores das lojas exclusivamente masculinas, de uma Grande Loja exclusivamente masculina, e os defensores da abertura de Lojas às mulheres com alteração da estrutura orgânica do GOL, ou apenas em Lojas de Adopção.


O que é de justiça, senso comum, e coerência, é que os mesmos homens que já aceitam a participação das mulheres na vida do trabalho, política e social activas, reconheçam também o seu pleno direito a um papel efectivo na construção de uma sociedade mais livre, igual e fraterna para todos.


Isto é, sem o risco de alterar a estrutura organizativa de algumas Obediências, reconhecendo e abrindo as portas uma inevitabilidade futura, reconciliando a sua constituição com a tradição histórica e o evoluir dos tempos e da sociedade.


E o primeiro passo a dar nesse sentido, mais que justo e perfeito, é o de consagrar como princípio universal maçónico, de que à iniciação são dignos de ser admitidos tanto homens como mulheres, desde que livres e de bons costumes.


Porque é de todo inadmissível e vergonhoso que homens que se querem de espírito superior sejam empedernidos misóginos!


E propõem-se eles, dizem, transformar a sociedade...


E pior ainda, é que algumas mulheres também já imitam os homens...


Marco Aurélio


0 comentário

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page