A festividade de Shavuot | 28.05.2020

Nesta 5ª feira ao anoitecer, dia 28 de maio, ocorre um dos dias mais significativos do calendário judaico: A festividade de Shavuot, onde se comemora a entrega da Torá ao povo judeu. É o aniversário e a celebração do dia em que o povo judeu ouviu os 10 Mandamentos quando estiveram acampados no Monte Sinai há 3.332 anos atrás.


Em Israel, Shavuot é uma festividade de um dia e na diáspora é comemorada por dois dias. Shavuot está no mesmo patamar espiritual que as festividades mais conhecidas de Pessach e Sucot: é marcada por refeições festivas e, em anos normais, há sessões de estudo de Torá nas sinagogas durante toda a noite.


Sendo Shavuot a comemoração de uma ocasião tão especial, por que é tão desconhecida para muitas pessoas?


Sem dúvida, uma das razões é que não há mitsvót específicas associadas a ela. Em todas as outras festividades há coisas que fazemos que dão uma identidade única à festividade: tocar o shofar em Rosh Hashaná, jejuar em Yom Kipur, sacudir o lulav e o etrog e comer em cabanas em Sucot, e comer apenas matsá (e não pão) em Pessach.


Todos esses atos dão a cada festividade uma identidade especial. No entanto, não temos nenhuma mitsvá específica associada a Shavuot. Por que não?


Nossos Sábios nos relatam que ao saber que receberiam a Torá, o povo judeu pediu que o próprio D'us falasse com eles. Os dois primeiros dos 10 Mandamentos foram falados por D'us, e assim Ele se apresentou à nação judaica. O primeiro dos 10 mandamentos diz: "Eu sou Hashem, seu D'us, que os tirou do Egito..." (Êxodo 20: 2).


O rabino Yehuda Halevi, que viveu aproximadamente 800 anos atrás, fez uma pergunta fascinante em sua grande obra sobre a filosofia judaica intitulada Kuzari: “Por que D'us se apresentou apenas como Quem tirou o povo judeu do Egito?


Um fato muito mais impressionante (e uma razão realmente convincente para aceitarmos Sua soberania e Suas leis) é que Ele é o Criador do mundo!”


A razão pela qual D'us Se apresentou como Quem os resgatou da escravidão no Egito e não como o Criador do mundo é porque o Todo-Poderoso não estava tentando expressar o Seu poder e o Seu currículo impressionante como razão para seguirmos Suas leis. Ele estava nos transmitindo que nos ama e Se importa connosco, e é por isso que nos tirou do Egito.


Da mesma forma, outorgar a Torá foi um ato de amor. Seguir a Torá como um guia para as nossas vidas nos leva a vidas melhores e mais significativas. É por isso que a entrega da Torá no Monte Sinai é descrita por nossos Sábios como um casamento entre D'us e o povo judeu.


É também por isso que o povo judeu exigiu ouvir a voz de D'us. Um relacionamento exige comunicação.


Na lei judaica, qualquer relação contratual pode ser estabelecida sem nenhuma das partes verbalizarem um compromisso; havendo uma concordância de idéias, não há necessidade de nenhuma das partes pronunciarem uma única palavra. Mas com o casamento é diferente.


Para que um casamento entre em vigor, é necessário fazer uma declaração verbal. Um relacionamento matrimonial transcende as obrigações contratuais e fiscais.


A razão disso é que o casamento é um vínculo emocional entre duas pessoas e uma união de suas respectivas essências. Ouvir a voz da outra parte é um meio de conhecê-la e um requisito indispensável para criar um vínculo emocional - pense em como você se sente ao ouvir a voz de um ente querido após uma longa ausência.


É por isso que a fala é um critério crucial para uma cerimônia de casamento e porque o casamento é a única sociedade na lei judaica que exige uma comunicação ‘falada’ para que seja válida (“Você está se consagrando para mim”).


Já que esta festividade vem celebrar o casamento do povo judeu com o Todo-Poderoso, não há mandamentos (mitsvót) específicos nesta festa.


Shavuot não comemora o fato que nos tornamos servos de D’us e assumimos a obrigação de observar Seus mandamentos. Ao invés disso, celebramos o fato de o Criador ter escolhido estabelecer um relacionamento ainda mais amplo conosco, não apenas nos definindo como Seus servos, mas elevando-nos ao status de Seus ‘desposados’, por assim dizer.


Esse vínculo transcende as leis e observâncias rituais e, portanto, não seria apropriado celebrá-lo com um ritual limitado.


Esta festividade não é sobre o que temos que fazer por D’us; é sobre alegrarmo-nos em nosso relacionamento. De fato, o Talmud escreve que Shavuot deve ser comemorada comendo e bebendo. Esta é a festa que celebra a união de D’us e Sua nação, com a Torá sendo o veículo para o noivado.


Shavuot é a celebração da outorga da Torá no Monte Sinai para todo o Povo Judeu. É uma época de re-dedicação e comprometimento ao estudo da Torá.


A Torá é o sangue vital do Povo Judeu. Nossos inimigos sempre souberam que quando nós, judeus, paramos de estudar a Torá, nossa assimilação é inevitável. Sem conhecimento não há comprometimento. Ninguém pode amar o que não conhece. Uma pessoa não pode fazer ou entender o que nunca aprendeu.


Um judeu é ordenado a estudar Torá de dia e de noite e ensiná-la a seus filhos. Se quisermos que nossas famílias permaneçam judias e que nossos filhos se casem dentro da comunidade, então devemos integrar um programa de estudo de Torá em nossas vidas e implementar estes ensinamentos em nosso lar e em nós mesmos.


Uma pessoa pode dizer a seus filhos qualquer coisa, mas somente quando eles veem seus pais estudando e fazendo mitsvót, herdarão o amor em serem judeus. Lembre-se: um pai somente deve a seu filho três coisas: exemplo, exemplo e exemplo!


Como podemos utilizar esta oportunidade fantástica para crescer e fortalecer nossa identidade judaica? Da mesma forma que uma pessoa engatinha antes de andar e anda antes de correr, o mesmo se dá com as mitsvót (preceitos). A pessoa deve escolher mais uma mitsvá, fazê-la bem e depois construir sua própria estrutura sobre ela. Eis aqui algumas sugestões:

• Leia a Torá! O Todo-Poderoso a deu a todos nós como um presente. É o livro de instruções sobre como ser feliz, escolher o cônjuge certo, fazer seu casamento funcionar, criar seus filhos com valores positivos, obter mais alegria da vida. A porção semanal da Torá nos mantém conectados e proporciona um atalho para nosso crescimento espiritual!

• Ouça ou assista aulas sobre temas judaicos ou compareça a uma aula sobre qualquer assunto da Torá a cada mês, pelos próximos 3 meses. Hoje é mais fácil do que nunca, pois há uma enorme variedade de aulas disponíveis online. Um bom amigo do rabino Packouz Z”L, o rabino Asher Resnick, tem um excelente site chamado www.jewishclarity.com. Você também pode encontrar muitos, muitos artigos excelentes em www.aish.com. Para os fãs da Torá e da filosofia judaica que compartilho com vocês aqui no Meor Hashabat, a fonte de grande parte do meu material está em www.rabbizweig.com - um site dedicado às aulas de meu pai, o Rabino Yochanan Zweig. Há literalmente milhares de aulas sobre quase todos os tópicos, e há algo para todos aqueles que desejam estudar - iniciantes, aqueles com alguma formação educacional judaica e aqueles com conhecimento judaico avançado.

Outra fantástica opção é adquirir uma cópia do Pirkei Avót (Ética dos Pais) e ler uma página por dia. É uma dose concentrada de sabedoria sobre a vida.


• Assegure-se de ter uma mezuzá casher ao menos na porta de entrada de sua casa. (O lar judeu deve ter mezuzót nas portas de todos os recintos, exceto o banheiro). Aprenda sobre o profundo significado da mezuzá e reflita sobre ele quando olhar para cada mezuzá.


• Escolha algum alimento não casher e não o coma – apenas porque você é judeu (judia).

• Fale o Shemá Israel e os três parágrafos seguintes ao menos uma vez por dia. Aprenda o significado das palavras e as ideias nelas incluídas. Isto mudará o seu enfoque e suas atitudes. Procure um Sidur com tradução (disponível na Livraria Sefer - sefer.com.br/sidur-completo/1/ – e na maioria das sinagogas).


• Faça um Shabat especial: acenda duas velas, com sua respectiva bênção, antes do pôr do sol. Faça, também, uma refeição familiar de Shabat na sexta-feira à noite, com o Kidush, Netilat Yadáim (lavagem ritual das mãos, vertendo água 3 vezes em cada mão) e HaMotzí (a benção antes de comer a Halá).

Em Shavuot existe o costume de passarmos a noite inteira acordados estudando Torá. Em tempos menos turbulentos, virtualmente todas as sinagogas e Yeshivót tinham estudos programados durante a noite, concluindo com a oração matinal de Shaharit. A razão: na manhã em que o Povo Judeu iria receber a Torá, no Monte Sinai, eles dormiram.


Nós, agora, podemos retificar a tendência de entregarmo-nos aos nossos instintos, demonstrando a nossa resolução ao permanecermos acordados toda esta noite. É uma experiência fascinante para compartilharmos com nossos filhos.


Aproveitemos a oportunidade desta festividade para refletir sobre a importância do estudo da Torá para as muitas gerações que nos antecederam e por que é crucial para a sobrevivência das gerações seguintes. Façamos do estudo da Torá uma parte imprescindível do nosso dia-a-dia, mantendo o vínculo eterno com o seu Autor e desfrutemos desta noite tão especial!


Rabino Ytzchak Zweig

Fonte: Meor HaShabat


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